“O testemunho e a coerência de Vicente Cañas nos interpelam e questionam”

Os participantes do Seminário Vicente Cañas, realizado entre 31 de março e 2 de abril no distrito de Aguaçu, no Mato Grosso, divulgaram a mensagem do encontro que resgatou a memória da vida e da trajetória do missionário. O seminário marcou o lançamento do livro “Provocar rupturas, construir o Reino: memória, martírio e missão de Vicente Cañas”, organizado pelo Cimi, e a memória dos 30 anos do assassinato de Kiwxi, como foi batizado pelos indígenas Myky.

 

“Seu testemunho e coerência de vida nos interpelam e questionam diante do atual contexto sócio-político-econômico em que vivemos. Vivenciamos neste encontro de memória, saudade e partilha momentos celebrativos que nos ajudaram a reavivar nossa fé, esperança e utopia”, afirma a mensagem dos participantes.

 

O documento também reafirma a necessidade da construção de uma rede em defesa do Bem Viver dos Enawenê-Nawê, povo ao qual Vicente dedicou importante parte de sua vida, e a relevância do novo júri popular “para a garantia dos direitos dos povos indígenas e a segurança para aqueles que, em apoio a esses povos, se colocam ao seu lado contra projetos que põem em risco as vidas, os costumes e as terras indígenas no Brasil”.

 

Leia a íntegra do documento abaixo:

 MENSAGEM DO SEMINÁRIO Ir. VICENTE CAÑAS, SJ.

Nós, vindos de Mato Grosso, Roraima, Tocantins, Amazonas, Maranhão, Pará, Rondônia, Acre, Brasília, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Equador, Porto Rico, Paraguai… participantes do CIMI, OPAN, REPAM, Comitê pela Memória, Verdade e Justiça da Amazônia, Casa da Cultura do Urubuí, CEB´s, Jesuítas outras Congregações Religiosas e representantes dos povos Indígenas: Enawenê-Nawê, Rikbaktsa, Kaawyweté (Kayabi), Guarani Kayowá e Myky, nos dias 31 de março, 01 e 02 de abril de 2017, ouvimos os relatos e refletimos sobre os testemunhos das pessoas que conheceram, conviveram, sentiram o assassinato e martírio de Vicente Cañas, há 30 anos. Até os dias de hoje, infelizmente, o crime continua em total impunidade, assim como tantos outros crimes impetrados contra os povos originários.

 

Durante o Seminário foi feita uma retrospectiva histórica sobre a vida do Ir. Vicente Cañas, que foi assassinado em 06 de abril de 1987, abaixo do lugar chamado Caixão de Pedra, no Rio Juruena, Território Indígena Enawenê-Nawê. Seu corpo foi encontrado, quarenta dias depois, mumificado e preservado, ao lado do barraco que usava como espaço de apoio.

 

Ele passou a conviver entre os Enawenê-Nawê em 1977, trabalhando pela garantia de seus direitos e pela demarcação de seu território tradicional. Seu testemunho e coerência de vida nos interpelam e questionam diante do atual contexto sócio-político-econômico em que vivemos.

 

Vivenciamos neste encontro de memória, saudade e partilha momentos celebrativos que nos ajudaram a reavivar nossa fé, esperança e utopia. Os testemunhos das pessoas que conviveram com o Ir. Vicente foram momentos marcantes.

 

Nesses dias de afirmação do compromisso com a causa indígena, duas questões centrais foram reafirmadas:

 

- a necessidade das entidades envolvidas com a questão indígena buscarem formas concretas de realizar trabalhos em rede assim como efetivar presença na aldeia Enawenê-Nawê contribuindo para a garantia do bem viver frente às várias ameaças das PCHs, BR 174, mineração e agronegócio.

 

- a importância de se buscar uma articulação para acompanhar e participar de maneira efetiva no novo júri popular, não apenas para que seja feita justiça no assassinato de Ir. Vicente Cañas, mas naquilo em que esse júri representará para a garantia dos direitos dos povos indígenas e a segurança para aqueles que, em apoio a esses povos, se colocam ao seu lado contra projetos que põem em risco as vidas, os costumes e as terras indígenas no Brasil.

Para manter viva a memória do Ir. Vicente Cañas, durante o Seminário, foi lançado o livro: “Provocar rupturas, construir o Reino: memória, martírio e missão de Vicente Cañas”, organizado pelo CIMI (Loyola, 2017). A Verbo Filmes esteve presente registrando o Seminário e será preparado um documentário em parceria com o CIMI, REPAM e SIGNIS do Brasil.

 

“Obrigado Ir. Vicente Cañas por deixar-te amassar e germinar pela Amazônia e seus povos. Obrigado por teu túmulo florido, por doar-te todo, por teu martírio e transformação profética, irmão jesuíta, em (Kiwxi) irmão dos índios!” (Fernando Lopez)

 

Aguaçu, Cuiabá, 02 de abril de 2017